Você já se perguntou se os atuais modelos de sustentabilidade, por mais bem-intencionados que sejam, são suficientes para reverter os danos causados pela humanidade ao planeta? Por anos, a resposta era que economia circular seria a grande solução para o modelo linear de “extrair, produzir, usar e descartar”. Ela realmente trouxe avanços gigantescos ao focar na redução de resíduos, no reuso e na reciclagem.
Contudo, a realidade climática e a velocidade da degradação ambiental e social exigem que tenhamos um olhar para além do circular. Hoje, já não basta apenas mitigar o dano ou manter o status quo, é preciso ir além da neutralidade e focar na restauração dos meios. É nesse contexto que surge a economia regenerativa, uma visão que busca não somente minimizar o impacto negativo, mas gerar impactos positivos líquidos e duradouros.
A economia regenerativa propõe um redesenho do modelo que conhecemos hoje, no qual os negócios podem funcionar como agentes transformadores para os sistemas naturais e sociais. Ou seja, ela não se contenta em reduzir o dano, mas o seu objetivo é deixar o planeta e as comunidades em uma condição melhor do que a que encontrou.
Economia circular e o caminho para o regenerativo
Para melhorar o entendimento, é preciso entender a relação e diferenças entres ambos os modelos. Para entender a economia regenerativa, é essencial reconhecer o ponto no qual a economia circular se torna insuficiente.
A circularidade, em sua essência, foca a eficiência: manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível. Seus princípios são fundamentais para combater o desperdício, mas o modelo ainda se concentra em otimizar um sistema que, fundamentalmente, depende da extração de recursos finitos e não aborda o déficit ecológico.O conceito de regeneração parte da premissa de que o planeta opera com “sistemas vivos”, e que a atividade econômica deve imitar e fortalecer esses sistemas, não os esgotar.
Imagine que enquanto a circularidade pergunta: “Como podemos reduzir o desperdício?”, a economia regenerativa pergunta: “Como podemos restaurar a biodiversidade, purificar a água e revitalizar as comunidades através de nossas operações?”.
Se a economia circular busca a neutralidade, com metas como o zero resíduo ou o Net Zero (emissões líquidas zero), a economia regenerativa busca o positivo líquido. Enquanto a circularidade tem como foco a otimização do fluxo de materiais no sistema industrial, a regeneração foca no redesenho do sistema de produção para que ele seja inerentemente benéfico ao ecossistema.
Por exemplo, a economia circular celebra a reciclagem de 100% de uma embalagem plástica, mas a economia regenerativa exige embalagens que se decompõem em nutrientes para o solo. Se a circularidade se contenta em reduzir o uso de água na agricultura, a regeneração exige práticas agrícolas que aumentem a matéria orgânica do solo.
Pilares da economia regenerativa
A economia regenerativa é um conceito abrangente que se apoia em princípios científicos, biológicos e sociais. Embora não haja um conceito e definição universal, ela se fundamenta em pilares interconectados que guiam a reestruturação das atividades econômicas. É importante ressaltar, que o trabalho de John Fullerton (Regenerative Capitalism) e Bill Reed (Living Systems Thinking) são importantes para o tema.
O primeiro pilar exige uma visão holística e sistêmica, ou seja, abandonar a visão fragmentada da sustentabilidade como algo separado dos demais assuntos e adotar uma abordagem que enxerga a empresa como um sistema vivo e interdependente, conectado ao ecossistema local e global.
Em seguida, o princípio do design para a natureza torna-se central. A economia regenerativa projeta produtos, processos e supply chains que são inerentemente benéficos. O resíduo de um processo deve ser insumo nutritivo para outro, e as operações devem fortalecer a biodiversidade e a saúde do solo.
A economia regenerativa reconhece que o capital se apresenta em diversas formas além da financeira: capital natural (solo, água, biodiversidade), capital social (comunidade, confiança, equidade) e capital humano (conhecimento, bem-estar), essa lógica fortalece o terceiro pilar que é o capital reprodutivo. O seu objetivo fundamental é garantir que todas essas formas de capital sejam reprodutivas e aumentem ao longo do tempo, em vez de serem esgotadas.
A inclusão e equidade social formam o quarto pilar, reforçando que a sustentabilidade não é sustentável se for socialmente injusta. Isso se manifesta na valorização do trabalho, na distribuição justa de valor e no fortalecimento de cadeias de suprimentos éticas e transparentes, garantindo que os benefícios da regeneração sejam compartilhados por todos. É importante reforçar que a economia regenerativa prioriza a construção de comunidades fortes, resilientes e equitativas.
Por fim, o pensamento de longo prazo é o guia para todas as decisões. A economia regenerativa rejeita a mentalidade de ganho rápido e foca na saúde de longo prazo. As decisões de investimento e operação são pautadas pela durabilidade do ecossistema e pelo bem-estar das gerações futuras, alinhando o sucesso do negócio ao sucesso do planeta.
Aplicação no meio empresarial
Mudar para um modelo regenerativo exige coragem, investimento em inovação e, acima de tudo, a redefinição da métrica de sucesso. As áreas de aplicação são vastas, tais como:
- Agricultura e alimentação regenerativa: este campo foca em práticas que aumentam a matéria orgânica do solo, melhoram o ciclo da água e sequestram carbono da atmosfera, transformando a fazenda em uma solução climática;
- Design de produto e materiais: a visão regenerativa exige ir muito além da reciclagem. Em vez de apenas pensar em como reciclar, as empresas focam em como o material pode se reintegrar à natureza ou ao ciclo industrial de forma segura e nutritiva;
- Construção e infraestrutura: a economia regenerativa exige que o próprio edifício se torne parte do ecossistema local. Isso é alcançado pela incorporação de biodiversidade urbana (telhados verdes e paredes vivas) e pelo design de gestão de água que coleta, filtra e devolve a água da chuva ao lençol freático em estado mais puro do que o recebido;
- Finanças e investimento: o investimento regenerativo direciona capital para empresas e projetos que demonstram um impacto ESG positivo e mensurável, com foco na restauração ecológica e social. O que envolve financiar startups de biotecnologia que limpam a poluição ou apoiar o desenvolvimento de cooperativas em comunidades vulneráveis, possibilitando que o dinheiro se multiplique e gere um movimento sustentável de modo sistêmico.
Agenda ESG
A economia regenerativa é a evolução natural da sustentabilidade na agenda corporativa, ela representa a resposta mais ambiciosa aos desafios climáticos e sociais da nossa atualidade. Embora a economia circular continue a ser uma etapa necessária para a eficiência no dia a dia da sociedade, o modelo regenerativo traz um novo olhar. É ele que propõe a oportunidade de reconstrução e possibilidade do desenvolvimento humano e o planeta estejam em harmonia no futuro.
Para os líderes de negócios e profissionais que já atuam na área de sustentabilidade, entender e aplicar a economia regenerativa é a nova obrigação. Assim, as empresas que conseguirem internalizar essa visão, redefinindo seus processos para serem ativos de restauração, serão as líderes incontestáveis do amanhã.
O tempo de mitigar o dano já passou, o agora exige que cada organização se torne uma força de regeneração, garantindo que o ESG não seja apenas um conjunto de boas práticas, mas um motor de prosperidade financeira, social e ambiental.